Uma carta de amor aos humanos

4–5 minutos
842 palavras

Lembro como se fosse ontem da minha mãe me levando para comprar as coisas da casa na feira da rua vizinha. Com meus bons seis anos, eu era uma criança que se entediava fácil, então aquela multidão toda de pessoas procurando o tomate menos machucado parecia uma eternidade, mas no mesmo passo que eu sentia tédio, sentia a sede de aventura e curiosidade, tinha compromisso marcado e estava contando os segundos para comparecer.

Havia uma barraca na feira que vendia os “lançamentos imperdíveis” do Playstation 2, então eu fugia da fila do tomate e me debruçava nas grades em que os CDs ficavam pendurados e alugava o dono da barraca perguntando sobre os jogos que ali tinham. Naturalmente, eu não tinha dinheiro — era uma criança e sem nenhum tipo de mesada—, mas aquela feira também era uma velha conhecida do meu pai, que passava após o trabalho e comprava os jogos naquele famoso modelo três jogos por R$ 10,00.

Os jogos vinham em uma embalagem de plástico transparente com a réplica da capa original e, embora dos três apenas um funcionava sem problemas, eu me divertia tanto ao ver as diferentes capas e modificações vistas nessas feiras. Já vi GTAs das mais variadas versões: Rio de Janeiro, Homem-Aranha, Sonic, torcidas… Isso sem falar da atualização quase mensal das mil versões do Bomba Patch —é 100% atualizado, ruim de aturar!— que adaptavam as janelas de transações dos campeonatos com uma precisão que deixava o Fabrizio Romano com inveja.

Olhando em retrospectiva, é admirável pensar que as pessoas faziam tudo isso por conta própria em um cenário que quase não havia informações sobre o que era ou como fazer replicação de mídia, modificação de jogos e até o design gráfico das capas. E o mais incrível de tudo: todas essas coisas eram feitas por nós, humanos.

Passaram 16 anos e não sou mais uma criança que oscila entre o tédio e a descoberta. Hoje, a descoberta vem até mim a todo momento, algumas vezes contra minha vontade. Informações novas chegam por meio de feeds infinitos com vídeos que apelam pro absurdo, para a retenção da atenção e para o uso exacerbado de inteligência artificial.

Claro que ela veio para somar, trabalho com tecnologia e ela é presente no meu dia a dia como designer, mas vejo que ela tem tomado cada vez mais o protagonismo naquilo que fazemos de melhor que é contar histórias e nos comover com elas. Lembro de esperar meu pai chegar em casa com os CDs, ansioso, e de tabela escutar como foi o dia de trabalho dele. De ir para a escola falar do que joguei com meus amigos e perder o recreio falando do irado “Shadow The Hedgehog” de PS2. Isso não é conteúdo para redes ou site, mas são histórias que nunca esqueci ou tenho a pretensão de tal. Os jogos me ajudavam a contar minhas histórias, mas dependiam apenas de mim para saírem do papel.

 O Chat GPT, Claude, Gemini e outras IAs que tomaram o mercado estão sendo utilizadas em massa para a geração de conteúdo, uma consequência da necessidade atual de consumo desenfreado e rápido de mídia que os algoritmos  nos empurraram goela abaixo. Perdemos a atenção e o foco, preferindo sempre vídeos de até um minuto, textos de no máximo um parágrafo e mídias cada vez mais produtizadas e mastigadas. Sendo inclusive um motivo para minha dúvida de começar ou não esta revista; ainda tem alguém me lendo até aqui? Espero que sim… 

A automatização pode ajudar e muito a criação, mas usada de maneira irresponsável ela mata o exercício da criatividade. Ser criativo também é errar na digitaçção, se perder nas próprias ideias, se entediar e se encantar novamente com o que você faz, o Claude nunca vai poder fazer isso por você. O meu objetivo com a Revista FICHA é tentar transmitir o sentimento que o Fellype de seis anos sentiu ao pisar na feira e contemplar os jogos que queria jogar: sentir que estava se divertindo através da diversão de alguém, da criação de uma pessoa de verdade. Quero, e muito, ver a humanidade criar novas soluções para problemas complexos, criar comodidades e melhorar a nossa experiência de trabalho; mas nunca em sacrifício do nosso espírito criativo e artístico. 

Escrevo essa introdução a Revista para reafirmar: nossas histórias e criações são nossas e apenas nossas. Uma IA pode criar um texto até parecido com esse, mas ele não terá o meu olhar, minhas gracinhas e muito menos o acúmulo de experiências que colecionei ao longo de todos esses anos. 

A FICHA é feita para as pessoas que não perderam — ou querem recuperar — o espírito pioneiro de descobrir um mundo novo a partir da ponta dos dedos, investindo tempo e dedicação em criar ou jogar experiências que mudaram e ainda vão mudar pessoas no mundo inteiro. Aquelas que fazem gambiarras coração para ver suas ideias darem certo independentemente dos obstáculos, se estão sozinhas ou em equipe, nunca desistir das ideias; isso é muito FICHA.

E para finalizar: A FICHA é feita de pessoas para pessoas 🙂

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